A PRODUÇÃO LITERÁRIA NEGRA COMO DIREITO DE NARRAR E EXISTIR




GRUPO DE CRIAÇÃO LITERÁRIA


Antes da primeira metade do ano de 2016 iniciou-se mais uma greve de professores da Universidade Estadual do Ceará (UECE) que perdurou até outubro do mesmo ano. Com esse evento indesejado, porém necessário na época, alguns alunos de Letras, História, Química e Matemática juntos do professor de literatura Rodrigo Marques, todos da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (FECLESC) (campus da UECE, em Quixadá) e visitantes de outras faculdades, vimos uma oportunidade de ocupar o espaço da universidade com arte - literatura. Em resumo, foi assim que surgiu o Grupo de Criação Literária, o qual teve suas ações desenvolvidas em Quixadá e Quixeramobim, no Sertão Central cearense, e se estenderam até o ano de 2017.


Com o fim da greve e a necessidade de repor o calendário acadêmico com urgência, os (as) integrantes do grupo tiveram menos tempo para dedicarem-se às ações literárias. Dessa forma, o grupo deixou de se encontrar, mas os integrantes continuaram a realizar atividades em universidades, escolas, projetos culturais etc.


Um elemento em comum para a maioria das pessoas que faziam parte do grupo, era que basicamente todos (as) cursavam uma licenciatura, que tem por vocação formar professores/as. Além disso, descobrimos que era comum entre nós o gosto por fazer literatura, o que ocasionou no estreitamento de laços entre os fazeres artístico e pedagógico.


Após a suspensão das atividades do grupo de criação, veio-me a vontade de continuar realizando atividades de criação literária, sobretudo, em escolas públicas e em escolas privadas, como forma de possibilitar um espaço para dar vazão às potências poéticas que as pessoas carregam consigo mesmas e nem sempre têm a oportunidade ou o incentivo para produzir, compartilhar e interagir com outros/as escritores/as.


A PRODUÇÃO LITERÁRIA NEGRA COMO DIREITO DE NARRAR E EXISTIR



Foto: Reprodução/Instituto Moreira Salles


Centros de formação, cursos e oficinas para a formação de escritores e escritoras são oportunidades pouco ofertadas dentre as possibilidades de formação cultural e artística que existem país a fora, especialmente as direcionadas para as pessoas pretas, pobres, marginalizadas do círculo cultural de suas cidades. Passar por uma formação, evidentemente, não é um caminho obrigatório para o surgimento de escritores/as, temos como um grande exemplo a escritora Carolina Maria de Jesus; no entanto, como seria a vida de adolescentes e jovens (e a da própria Carolina) caso tivesse existido/caso exista, cotidianamente, a possibilidade de se encontrar com escritoras para compartilhar experiências e processos de criação? Quantos/as grandes escritores/as se perderam (perdem) por falta de condições mínimas para viver ou porque dizem que o que nós fazemos não é literatura? Imagine como seria o mundo ou a sua área escrita e contada por você e pelos seus. Chegamos a um território em disputa.


Existe, ainda hoje, uma visão tradicional branca que acredita que a literatura possui um fim em si mesma. Belas Letras. Pura linguagem. Mas, a linguagem/linguagem literária também expressa poder. Quem a domina, certamente, se apodera de uma ferramenta potente na construção do mundo, usada tanto como mecanismo de controle e dominação sobre tudo o que existe, como, também, serve para libertar, resgatar as múltiplas formas de narrar o mundo e existir. Isto é, dominá-la é um caminho para a construção de novas narrativas sobre si, sobre o mundo, a partir de um olhar descentralizado. Frantz Fanon, em Pele negra, máscaras brancas, tece o primeiro capítulo sobre o negro e a linguagem e considera que:


Todo povo colonizado — isto é, todo povo no seio do qual nasceu um complexo de inferioridade devido ao sepultamento de sua originalidade cultural — toma posição diante da linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana. (pág. 34)

A criação literária como atividade artística e pedagógica centrada num viés emancipador, antirracista é, portanto, um caminho necessário para desvelar um mundo simbólico e material que é criado a partir de um mesmo lugar. O lugar do pensamento eurocêntrico, responsável por nos excluir de um modo de existir (em aspectos social, psicológico, epistemológico e artístico), no qual a realidade é não caber ou se contorcer para caber – embranquecer/não-ser. Esse olhar tende, por força racista, a homogeneizar a nossa existência de acordo com as pretensões deles, em geral, reforçando estereótipos com caricaturas animalescas, à lá Monteiro Lobato.


Criar espaços próprios para nossa criação artística, assim, é uma forma de nos colocarmos no centro dos modos de existir e de fazer; isso implica revisitar nosso passado ancestral a curto, médio e longo prazo para dar fôlego à construção de perspectivas contextualizadas às nossas vidas no hoje e no amanhã, compreendendo-nos como seres completos. A proposição de lugares centrados nas narrativas sobre nós, pretos e pretas, dá continuidade à ruptura das narrativas criadas sobre nós, para a agência de um olhar nosso sobre nós, isto é, criar histórias, poemas, escritos por nós mesmos/as. Diante desse olhar, abre-se um leque de possibilidades em que a produção literária pode surgir de forma artística, pedagógica e combativa ao racismo dentro e fora das escolas.


No livro O direito à literatura, Antônio Cândido aborda sobre o acesso à literatura como um direito humano universal, como faculdade própria da humanidade e indissociável de nossa existência. Ora, se o acesso é considerado um direito humano, o direito de produzir, da mesma forma, também deve ser. Pelo menos, três elementos são fundamentais nesse processo: autor/a-texto-leitor/a. Ocupar esses espaços é um caminho para alcançar o direito à literatura. Reitero, a medida em que nós pretos e pretas produzimos no contexto de nossas culturas é a mesma medida em que nós existimos de um modo que faça sentido pra nós. É por isso que escrevo, porque acredito que a minha palavra é extensão da minha voz e assim eu existo.


Foto: Arquivo pessoal