ALMA NO OLHO - ou aquilo que a gente rouba / outro manifesto



Este texto baseia-se numa oficina que foi ofertada na Residência Artística Pousos & Pausas, acontecida na cidade de Quixeramobim, intitulada Narrativas Audiovisuais: um diálogo entre o Eu e o Outro cujo momento visava tensionar olhares ao cotidiano - racializado; demarcado inconscientemente - que, de maneira estigmatizada, privilegia a norma colonial e uma falsa democracia racial. No entanto, as questões que viso aqui, para além da tensão olhar, se fazem na necessidade de abrir margem para a função imagética que ultrapassa a materialidade e permeia o abstrato inconsciente que a fundamenta. Neste texto buscamos uma dialética dentro desses critérios nas buscas da reinversão de narrativas de um passado futuro.


Ao abordar a temática sobre imagem/ns pode residir, num primeiro momento, o vício mental associando a questão à fotografia (ou audiovisual, cinema em mais específico - instrumentos que nos tocam em primeiro), o que nos faz perder a concepção de como outras ferramentas são constituintes da visão de mundo ao nosso redor.

"Certa manhã, ao despertar de sonhos agitados, Gregor Samsa deu consigo na cama transformado num inseto monstruoso…"

Na escola, ainda figuramos exaustivamente a imagética da escravidão [ouvir o Drops Ressonância anterior]; quando protagonistas, simbolizamos o mártir que "nunca chega", tendo a vida ceifada pelo algoz; quando não, somos o apêndice costurado ao mundo branco naquele ideário integracionista usado como fachada - democracia racial. Não é um ignorar das mudanças alcançadas pelo movimento negro, em relação as LDBs. Leia como fio de tensão para gatilhos despercebidos.


Temos bell hooks, que critica a força deste lugar objetal do ser negro nas representações culturais. Dialogando com Stuart Hall, podemos pensar a indústria cultural de massa e ter em lugares específicos o ser enquanto objeto fixado.





Aqui falo diretamente com irmãos e irmãs pretas… Se você cresceu sendo pivete preto, assim como eu, teve por muito, grandes figuras a quem associou sua afeição, essa evoluindo para inspiração. O que vale dizer é que por mais preto o seu redor fosse, algumas referências poderiam cristalizar situações mundanas assumindo uma verdade subjetiva; a identidade. Homens pretos são jogadores de futebol, guerrilheiros, lutadores. Mulheres pretas são domésticas, prostitutas, mães sofredoras, parceiras em crimes. Antagonistas principais ou sujeitos dignos de dó em produções midiáticas, ficcionais ou não - exemplos de Datena's por aí. Longe de desqualificar qualquer que seja o lugar no qual a gente se insere para conseguir sobreviver. A ideia é que lugares imagéticos assim não estão aí à toa.

Nos conhecendo enquanto sujeitos desejantes e comparativos dentro da episteme ocidental que, põe enquanto padrão de humanidade a performance da branquitude, se torna inalcançável o tornar-se dentro da lógica avessa ao social sufocante; dentro disso, conhecer a caricatura racializada que estabelece mitos animalizantes é essencial, mas não o suficiente para o combate ao racismo - por este ser objeto em prateleira.

Qual mentira vou acreditar?

O lucro com a luta é manutenção da lógica exploradora, ao mesmo tempo que silenciamento comunitário, tendo em vista o interesse mercadológico por marcas/totens salvacionistas - o indivíduo acima da questão. Em outras palavras, o racismo vende, onde nos situamos? Vendedores ou Venda?

Dentro do que as inúmeras questões provocam, a sistemática revolucionária nos aponta a ocupação de lugares a fim de uma reestruturação sistêmica numa escala racial, antes negados para a parcela preta. Nossos corpos na linha de frente - recusando a premissa do estar vivo enquanto ato revolucionário, pois ante a vida existem os que morrem sem saber de sua condição -, um embate cotidiano bombardeado por espaços que nos negam física e mentalmente. É o exercício da representatividade exercer o estar e representar a quem não está. Nessa reconfiguração o "eu" não narcísico - aquele que não representa a lógica do Mesmo / o universo ocidental - reconfigura os espaços antes mono racializados, sendo o pluralidade marcada no sistema como o produto.

A questão, no entanto, nos joga na contradição, afinal, nos interessa ser produto (novamente) ou produtores? Desconstruímos tudo, e tanto, que acabamos não construindo nada e a utopia de uma liberdade é definida por limites. No fim, aliás, frente ao mesmo, temos cotas - aqui distanciando da significação e valor real da lei. A representatividade - ou o mínimo que nos deixam ter.

Autoreverse

Estamos no fronte. Aqui é necessário situar detalhadamente os termos: Quixeramobim - Sertão Central - Ceará - Nordeste - Brasil. Porque intempéries nos acometem para além da raça e se faz necessário situar. Classe, gênero, territorialidade, faixa etária. A superação de uma não se traduz como vitória, não pra quem é marcado pelo passado e visa um futuro - um AFROFUTURO - que caiba no jogo. Se as regras não estão para nós, fuck the system! Criemos o nosso tabuleiro.

É nessa busca que visamos a reconstrução de narrativas visuais - essas que perpassam a mera imagem-matéria - tensionadas por um (in)consciente colonial. Defronte, temos Djonga e BK': "Como se fosse a noite, cê vê tudo preto /Como fosse um blackout, cê vê tudo preto /São meus manos, minhas minas / Meus irmãos, minhas irmãs, yeah / O mundo é nosso… "


Se não temos o paraíso façamos do mundo o inferno preto, afinal, donde vem a graça do paraíso cristão?!


Ha ha ha