Considerações sobre o roubo da vida a partir da literatura afroamericana.

Atualizado: 11 de jul. de 2020


Quero iniciar este texto expondo o quanto James Baldwin foi fundamental pra que eu continuasse cursando letras inglês, além dele Toni Morrison também me deu luz para continuar em disciplinas exageradamente brancas. Falo dessa forma pois não consigo mais aceitar o fato do centro ser ocidental, de sermos obrigados a estudar e aprender sobre teoria, literatura e demais campos onde vidas negras não existem. A academia me abriu muitas portas, mas também me fecha todos os dias. Eu preciso estudar sobre Harold Bloom e seu cânone ocidental, mas se eu quiser estudar sobre literatura africana, como a de Wole Soyinka eu tenho que fazer por minha própria conta.

Ler James Baldwin é também ler sobre história, assim como outras autoras e autores negros. Baldwin usou suas obras como ferramentas de denúncia contra o racismo nos EUA e um dos temas mais presentes em seus livros é a homosexualidade negra. A peça Blues for Mr. Charlie, de 1964, primeira obra do autor que eu li, foi baseada em um fato real, o assassinato de Emmett Till, um garoto de 14 anos de idade, que segundo as testemunhas brancas envolvidas no crime, teria assobiado para uma moça branca em uma loja. Emmett foi torturado até a morte e esse crime foi um dos estopins para o movimento dos direitos civis acontecer nos EUA.

Situando um pouco sobre a narrativa: Richard Henry, que acabara de voltar para sua cidade, estava passando uns dias na casa do pai e foi morto supostamente por um homem branco, Lyle Britten. Richard queria ganhar a vida como músico porém ficou viciado em drogas, fazendo com que ele voltasse para a casa de seu pai. A peça possui linguagem complexa para nós que estudamos inglês, mas inglês dos brancos. Mas também se torna complexa por ser repleta de flashbacks, que possibilitam que o leitor conheça a vida de Richard antes de sua morte, pois a peça já começa nos preparativos de seu funeral.

A forma como Baldwin organizou o palco transmite a ideia de segregação vivida nos EUA, pois de uma lado do cenário ele colocou a “BLACK TOWN” que seria a vila dos negros, no meio e ao fundo, a igreja, e do outro lado do cenário ele colocou a “WHITE TOWN”, que seria a vila dos brancos. Essa divisão evidencia a realidade que acontecia nos estados unidos naquela época, essa separação na peça é mostrada tanto geograficamente como ideologicamente, através dos discursos que cada raça possui em relação a outra. Em Blues for Mr. Charlie podemos analisar muitos temas, um deles é a hipersexualização do corpo negro tanto do homem como da mulher, acompanhado da exploração por parte dos homens brancos e o estereótipo do homem negro como perigoso às mulheres brancas ou como vilão/monstro.

São justamente esses personagens que representam na vida real os assassinos de um garoto negro de 14 anos. Mais de 50 anos depois de um júri branco, assim como na obra, a pessoa confessa que Emmett nunca fez nada a ela. É revoltante pensar que estamos há anos(séculos) sendo mortos sem fazer nada, enquanto quem nos mata só ganha mais força, apoio e aumento de salários. Estou citando um caso da déc. de 50, e hoje vemos mais um dos nossos, com a mesma idade ser morto e ainda mais, levado pelos seus assassinos, sem que a família nem soubesse onde estava, sem ter havido denúncias.

Existe uma venda nos olhos do povo negro brasileiro, que não permite enxergar que não existe essa de integração, raça humana, miscigenação, somos todos iguais, o que existe é um sistema racista e assassino. Vejo muitas pessoas falando sobre os EUA, sobre o quanto eles são organizados ou o quanto não deixam passar certas coisas, devemos olhar pro passado deles para entender esse presente.

Sempre aprendemos na escola que a Princesa Isabel foi a nossa rainha libertadora, mas nunca aprendemos sobre Zumbi, Dandara, Luis Gama, dentre outros abolicionistas. É como ter que ler A cabana do Pai Tomás como referência literária do período escravocrata estadunidense, em vez de Frederick Douglass. Eu cito a escola, pois é o sistema que ainda criança somos colocados para receber o referencial de conhecimento e intelectualidade.

A escola é responsável por nos dizer o que é e o que não é necessário aprender sobre e na maioria das vezes aprender sobre pessoas negras não é necessário para esse sistema. Isso ocasiona em nós, pessoas pretas, o afastamento da nossa negritude desde cedo. Onde já se viu alguém querer ser algo que não existe, não aparece, não é valorizado? Quando você enxerga que isso é um problema sério, muito maior e que não é só o PPP da escola que não tá de incluindo, você percebe que vivemos num mundo que não liga pra gente e que pra dizer que não é isso, vai fazer homenagens nos dia 20 de novembro e em 13 de maio, afinal somos a mão de obra do país, pra alguma coisa ainda, a mesma coisa, eles nos querem.

Termos de ter consciência de quem somos e que temos a nossa história e nela teóricos, inventores, cientistas, escritores, médicos, dentre outras áreas do conhecimento que somos obrigados a aprender a partir do eurocentrismo. Mas acontece que estamos sozinhos nisso, não há ainda uma força/organização que nos permita trazer essa nova perspectiva para a vida de pessoas pessoas pretas e transformar isso em um fácil acesso. Precisamos criar os nossos espaços, precisamos fazer o nosso dinheiro voltar para nós, quantas pessoas pretas ricas só compram de brancos? Será que não sabem que existem pessoas negras produzindo de tudo, mesmo com as dificuldades?

A literatura tanto afroamericana como afrobrasileira, foi essencial para que eu e outros pretos pudéssemos enxergar de verdade a realidade que estamos inseridos e além disso, permitir criar amor por si, e não mais buscar ser o outro, estabelecer uma autoestima, ou melhor afroestima. A literatura é sim uma ferramenta de transformação social e a melhor de todas, racial, pois a partir dela tantos de nós nos tornamos os pretos que somos hoje, tantos de nós abandonaram leituras racistas e tantos de nós começamos a libertação de nossas mentes.