Cura para a insegurança - Uma tentativa e um ensaio



Antes de tudo uma contextualização....


Reuni para este ensaio algumas fotografias, que foram feitas de frente para o espelho, na sala de minha casa. E trouxe como legenda alguns poemas que escrevi nesse período de quarentena, poemas esses que estão reunidos num livro-zine-digital que tem como titulo "poemas sobre corações partidos" (ainda pensando quando e por onde vou lançar) .

Pensei então que esses textos dialogavam com as fotografias, sendo eles partes de um processos de identificação e reconhecimento de um problema, uma questão, aceitação e busca por solução.

Este ensaio é sobre insegurança, mas também uma tentativa de superá-la. Sempre enxerguei a arte como uma possibilidade de cura. Escrevo quando me sinto mal com alguma coisa ou quando já não consigo falar ou explicar algo que sinto. Penso que meu trabalho com a fotografia também não seja diferente.

Esse ensaio é ao mesmo tempo extremamente pessoal mas também coletivo. Tenho lido bastante sobre relacionamentos e como a cultura ocidental tem adoecido as pessoas, principalmente as pessoas pretas.

Estamos adoecidos. Machucados. Temos nos maltratado, dia após dia. Mesmo quando aprendemos que devemos amar e nos relacionar melhor entre si, carregamos ainda a forma ocidental de amar, a forma branca.

Diversas vezes pensei sobre a insegurança. O que nos torna tão frágeis e inseguras? De onde vem esse medo? E mais, o que podemos fazer para que possamos nos relacionar melhor, amar melhor e se amar mais? Como a gente pode ser melhor par a nossa comunidade e como a gente pode construir relações saudáveis e duradouras, já que para o povo preto isto é urgente e necessário.

Este trabalho é um processo, uma tentativa. É também como um chá ou um banho de ervas. É olhando para o espelho que tento descobrir o que há de errado comigo e é sendo abraçada por meus irmãos e irmãs pretas que aprendo que não há nada de errado, mas há muitas feridas.

Apreciem Cura para a insegurança...




 



Eu não sei como vou lidar com toda essa explosão de sentimentos

Estou tentando dormir.

tentando respirar.

tentando me sustentar por aqui.

Eu não sei como vou esquecer tudo isso

Se a cada minuto que ti olho os olhos, a boca, o sorriso no canto do lábio, tua pele e sinto teu calor

Me vem na cabeça cenas de coisas que eu não vi e nunca queria ter sabido que existiram

Me vem uma angústia tão profunda que não consigo sequer ter raiva

Me faltam as emoções.

Eu não sei como vou conviver dia após dia com a certeza que você trocou (troca?) olhares, mensagens, desejos com uma outra mulher.

Que eu não sei o nome, a cor, a idade, a cidade.

Que eu não sei se quero saber.

E que você sequer teve coragem de contar.

Eu não sei como continuar a te amar

E isso me rasga o peito.

Me reparte em três.

Me despedaça.

Me corrói.



Insegurança

substantivo feminino

1.

ausência de segurança; periculosidade.

"a insegurança das grandes cidades"

2.

sensação ou sentimento de não estar protegido, seguro.

"o desemprego generalizado causa insegurança"




Outras definições para a palavra Insegurança


Medo.

Medo de a qualquer momento ser traída de novo. Insegurança tem a ver com falta de auto amor, baixa autoestima.

"Insegura demais para se amar”.

"Estou insegura nesta relação".

Insegurança.

Um nó grande na garganta. Frio na barriga. Uma sensação de apequenamento. Neurose. Pretenso complexo de inferioridade. Viralatisse. Pobre dos cachorros, nada tem com isso.

Insegurança.

Danado para destruir relações. Comparações bobas e estúpidas. Pensamentos obsessivos e repetidos. "Será que ela é branca?" "Será que ele gostou do beijo dela?" "E se tiver tocado seu corpo de forma íntima?” "E se ainda conversam e alimentam sentimentos, desejos e vontades?"

Sentimento desgraçado. Dá para viver com isso?


Para a mulher que ficou com meu namorado

- uma não-carta

Por hora você não merece uma carta, nem merecia uma página entre meus poemas de dores, totalmente ficcionais. Eu não ti conheço, não posso ti odiar ou sentir qualquer coisa sobre você.

Essa relação não significa nada para mim. O que vocês fizeram não pode me definir, não serei essa mulher que vocês querem que eu seja.

Por hora, foda-se a sororidade. Você é muito puta mesmo, como pôde? Tenho certeza que sabia de tudo, e mesmo assim foi, em troca de que? O que ele ti deu?

Sei que você não tem culpa. Talvez tenha sido usada, que triste pensar nisso, que triste escrever isso... Eu não quero ti diminuir, já basta uma de nós com esse sentimento.

Eu tô exausta de pensar em você. De achar que você importante ou que ainda existe na vida dele. Nem sei quem você é e tem dias que só consigo pensar nisso.

Estou tentando me livrar desse sonho.

Tomara que esteja bem. O amor romântico e a monogamia são uma bosta. O amor ocidental não serve mais, não funciona mais. Não resolve nossos problemas. Não cura a dor dos pretos.

Por hora. Fuck you bitch.




Para B.

Querida B. Tudo isso vai passar, antes que você perceba. Não se preocupe se não conseguir chorar nos primeiros dias ou se não tiver vontade de levantar da cama. Sinta sua dor. Fique em silêncio. Recolha-se. Volte para casa. Arrume suas coisas. Fale com sua mãe. Concentre-se em você. Ouça quantas vezes precisar o Lemonede e acima de tudo não se culpe. Tudo vai passar. No fundo você até já sabe disso. Sabe que esse modelo de relacionamento baseado num ideal romântico não funciona. Não é real. Você sabe que precisa voltar seus olhos, ouvidos e coração para outra direção. As respostas não estão aqui. Mas não se apresse. Aprenda com que já refez a travessia. Olhe para as pretas, aprenda com elas. Quando uma mulher se machuca sempre há outra que já passou por isso para lhe oferecer carinho e colo. Você não precisa passar por isso sozinha. Você não estará só. O amor entre pessoas pretas pode curar. Não desista disto nem se esqueça. O que você precisa agora é entender isso, deixe que a comunidade faça parte de sua dor e seja abraçada por ela.





O que nossos ancestrais diriam para nós, olhando nossa trajetória, olhando profundamente aos nossos olhos? Eles teriam orgulho do que nos tornamos? Rezo pela nossa conexão. E peço a eles que nos guiem. Que nos ensine como devemos amar. Chamo você para a dança dos espíritos. Você consegue sentir? O arrepio na pele, a vontade de rir, o cheiro de rosas e a sensação boa que da na boca como se tivéssemos acabado de beber água? Chamo você, pois quando olho para os lados só vejo a ti, tua mão estendida e à frente toda aquela estrada que já percorremos. Vejo a gente molhando os pés no rio e segundos depois inundados com a alegria das crianças. Você se lembra? Consegue perceber o quanto isso é forte? Consegue sentir o que sinto? O que deixaremos para nosso filhos e netos que ainda nem nasceram? Você já pensou sobre isso? Rezo pelo nosso futuro. Todos os dias.





 

Referencias

-https://medium.com/epifania-preta/o-esvaziamento-do-amor-afrocentrado-ou-melhor-relacionamento-afroc%C3%AAntrico-aef3ed19a5e8?source=collection_home---4------0-----------------------

-https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2017/05/30/sobre-poligamia-parte-1-ou-chegou-a-hora-de-enfrentar-esse-debate-africanamente/

-https://open.spotify.com/album/7dK54iZuOxXFarGhXwEXfF?si=2L-XzjP6Rz6XyWw6izhbXA



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